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Saúde

Covid-19: 9 erros que levaram às 100 mil mortes (e 1 lição que a pandemia deixa)

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Protesto em São Paulo pelas 100 mil mortes do coroanvírus no Brasil

Reuters
Brasil passa das 100 mil mortes com um número de óbitos diários ainda muito elevado


Quanto tempo leva para contar até 100 mil? Nessa pandemia, foram 164 dias no Brasil, do primeiro caso até  passarmos das 100 mil mortes por causa do novo coronavírus.

O total cresceu mais gradualmente no começo, do primeiro óbito, em 12 de março, até pouco antes do país passar de 10 mil, em 9 de maio. Aí a curva de contágio empinou de vez. As mortes dobraram em menos de duas semanas. Um mês depois, eram mais de 50 mil. Agora, neste sábado (8/8), chegaram a 100.477.

É como se a maior tragédia da aviação brasileira (o acidente de avião da TAM no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, que matou 199 pessoas) tivesse se repetido 505 vezes desde 26 de fevereiro, quando o primeiro caso foi oficialmente confirmado.

Seriam três desastres de avião daquele porte por dia, todos os dias, ao longo de mais de cinco meses.

Ou equivalente à população inteira de cidades como Jataí, em Goiás, Barra do Piraí, no Rio de Janeiro, Mairiporã, em São Paulo, e Abreu e Lima, em Pernambuco.

O Brasil é agora o único lugar do mundo além dos Estados Unidos que superou esse patamar. Mais de 161 mil americanos já morreram por causa da pandemia.

A taxa brasileira é a 10ª pior entre 209 países monitorados pelo Our World in Data. Mas estão à nossa frente países como San Marino e Andorra, que têm populações muito pequenas e só algumas dezenas de mortes. Ou França, Itália, Reino Unido, Bélgica e Suécia, onde as mortes diárias vêm caindo há meses e, atualmente, estão em um dígito.

Mas a nossa taxa de mortes por milhão de habitantes é a segunda maior entre os dez países mais populosos do mundo, segundo o site Our World in Data, da Universidade Oxford, no Reino Unido. São 473 mortes/milhão, enquanto os Estados Unidos têm 487 mortes/milhão.

‘Nossa incompetência’

Mas, enquanto os números de mortes diárias vêm caindo em diversas partes do mundo, estes números continuam muito altos por aqui.

As mortes diárias variaram entre 541 (em 2/8) e 1.437 (em 5/8) na última semana, e estabelecemos há muito pouco tempo um novo recorde nacional em toda a pandemia: em 29 de julho, 1.595 novos óbitos foram confirmados.

É em meio a uma epidemia ainda bem intensa que passamos do marco simbólico das 100 mil mortes, que escancara o fracasso do Brasil em evitar uma tragédia sem precedentes.

“Chegar a 100 mil é um sinal da nossa incompetência. Certamente, poderíamos ter feito melhor”, diz Natália Pasternak, doutora em microbiologia pela Universidade de São Paulo (USP) e presidente do Instituto Questão de Ciência, dedicado à divulgação científica.

A visão é compartilhada por líderes, pesquisadores e profissionais de saúde com quem a BBC News Brasil conversou para entender os erros do país no combate à covid-19.

“Esse número mostra que, como país, não estamos conseguindo conter o vírus”, diz Ester Sabino, que fez parte do grupo que fez o mapeamento genético do coronavírus no Brasil.

A médica, que é professora da Faculdade de Medicina da USP, alerta que o surto brasileiro ainda está longe do fim. “Se nada mudar e continuarmos com mais de mil mortes por dia, o total de mortes vai chegar a 200 mil em no máximo cem dias.”

Por isso, é fundamental compreender quais foram os equívocos que levaram o Brasil a este ponto — e qual é a lição que a pandemia deixou para o país até agora.

Erro nº1: Não nos preparamos para essa pandemia

Pássaro sobre cruzes em cemitério

Reuters
Mortes poderiam ter sido evitadas se possibilidade de uma pandemia não tivesse sido subestimada


Um ponto no qual o Brasil e outros países do mundo falharam foi não terem se preparado para uma pandemia como essa.

“Já era falado há algum tempo que poderia acontecer, que não era ficção como muita gente pensava, mas os esforços internacionais para sermos capazes de responder a isso ainda eram incipientes”, diz Sabino.

A cientista avalia que o fato da pandemia anterior, de H1N1, e de epidemias causadas por outros coronavírus, como as de Sars e Mers, não terem sido tão graves como se imaginou inicialmente contribuiu para isso.

Nos 16 meses da pandemia de H1N1, por exemplo, houve 493 mil casos confirmados e 18,6 mil mortes, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

As epidemias de Sars e Mers tiveram 8 mil e 2,5 mil casos respectivamente, enquanto agora já passamos dos 19,5 milhões de casos e das 723 mil mortes por covid-19 no mundo.

“Como não houve antes um impacto como o de agora, as autoridades pensavam que tinham ferramentas suficientes para lidar com um evento desse tipo”, diz Sabino.

Erro nº 2: Não houve um plano nacional contra o coronavírus

Ministro da Saúde de máscara

Reuters
Após duas trocas no comando do Ministério da Saúde, pasta segue com um líder interino


O primeiro caso foi confirmado no Brasil quase dois meses depois da China alertar a OMS sobre o novo coronavírus. Havia então mais de 81 mil casos e 2,75 mil mortes em 38 países.

Mesmo assim, quando a pandemia finalmente atingiu o país e mesmo depois disso acontecer, não houve um plano nacional — ou mesmo planos em escala regional — para o combate ao coronavírus, diz Sabino.

Sem um consenso entre os governos federal, estaduais e municipais, houve decisões desencontradas e descompassadas, o que faz com que hoje a epidemia esteja arrefecendo em algumas partes do país e se agravando em outras.

“Controlar uma epidemia é difícil, mas não é impossível. Só que a gente precisa formular um bom plano para isso. E até hoje não temos um, a não ser aguardar por uma vacina ou esperar a pandemia passar”, diz a cientista.

Sabino diz que a resposta do país foi prejudicada pela troca de comando no Ministério da Saúde. Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich pediram demissão do cargo em plena pandemia, por divergências com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), e ainda hoje a pasta é liderada por um ministro interino, o general Eduardo Pazuello.

“O Mandetta criou um plano, mesmo que no meio do caminho, mas depois saiu, e isso acabou fragilizando a nossa reação, porque você não consegue refazer uma política de saúde de uma hora para a outra”, diz Sabino.

Erro nº3: Bolsonaro minimizou a pandemia

Jair Bolsonaro com a bandeira do Brasil ao fundo

Reuters
Presidente negou a gravidade da pandemia em diversas ocasiões


Em dos seus primeiros comentários sobre a pandemia, o presidente disse que estava sendo “superdimensionado o poder destruidor” do coronavírus. Ele também criticou as medidas de isolamento social ao dizer que a covid-19 era uma “gripezinha” ou um “resfriadinho”.

Bolsonaro afirmou ainda que a crise gerada pelo coronavírus era uma “fantasia” e que havia uma “histeria” em torno do assunto. Também disse que “todos iremos morrer um dia”.

Questionado sobre os recordes de mortes, respondeu: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”. Agora, ao comentar sobre as mais 100 mil mortes, disse que “vamos tocar a vida e se safar desse problema”.

Natália Pasternak diz que a postura do presidente foi muito prejudicial para o combate à pandemia: “A pandemia nos encontrou com a pior liderança política possível, no pior momento”.

Erro nº4: Não foram feitos testes em massa

Pessoa faz teste de covid-19

Reuters
Sem ampla testagem, não é possível quebrar a cadeia de transmissão do vírus


Outro equívoco que o Brasil cometeu (e ainda comete) foi não testar em massa a população, diz a pneumologista Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Os dados mais recentes do Ministério da Saúde apontam que, entre 1º de fevereiro e 31 de julho, foram realizados 2.135.487 exames laboratoriais para diagnóstico da covid-19. Os números não incluem testes em hospitais e clínicas particulares, apenas na rede pública.

Isso representa apenas 1% da população brasileira e ainda está bem longe da meta de testar 12% dos brasileiros com exames laboratoriais, apresentada por Pazuello ao Senado em 23 de junho.

Sem uma ampla testagem, não é possível rastrear as pessoas que entraram em contato com quem estava infectado, para isolar aquelas que também tivessem se contaminado. A OMS ressaltou diversas vezes que isso é fundamental para quebrar a cadeia de transmissão de um vírus.

Nos países bem-sucedidos no combate à pandemia, essa proatividade foi fundamental, diz Dalcomo. “Esse foi o modelo da Coreia do Sul, que, para mim, foi o melhor modelo de combate à pandemia.”

Erro nº5: O isolamento social não foi suficiente

Praia cheia no Rio de Janeiro

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Adesão da população às quarentenas não foi suficiente para conter a propagação do vírus


Dalcomo diz que outro fator que levou a tantas mortes foi a falta de um lockdown propriamente dito. Esse é o nome dado ao bloqueio total de uma cidade ou região.

De um lado, lugares onde a curva de infecção se acelerava de forma preocupante resistiram em adotar a medida — como São Paulo, o Estado com maior número de casos e mortes, e o Amazonas, que viu seu sistema de saúde entrar em colapso.

De outro, locais onde o lockdown chegou a ser decretado por governos ou pela Justiça, as autoridades muitas vezes não conseguiram restringir a circulação ao nível recomendado pela OMS, de 70% de isolamento.

Em Fortaleza, no Ceará, o índice não passou de 55% enquanto o lockdown vigorou, de 8 a 30 de maio, segundo a empresa In Loco, que criou um índice baseado nos dados de geolocalização de celulares. O nível foi semelhante em São Luís, no Maranhão, que viveu um lockdown de 5 a 18 de maio.

No Estado do Rio, onde alguns municípios (mas não a capital) decretaram a medida também em maio, o isolamento atingiu no máximo 57%. Na época, a Fiocruz enviou um posicionamento ao Ministério Público do Rio de Janeiro em que recomendava a adoção urgente de medidas mais rígidas de distanciamento social.

“Nós perdemos o timing”, diz Dalcolmo. Para ela, uma ação mais enérgica naquele momento poderia ter evitado mortes.

Pasternak concorda que quarentenas mais eficientes desde o início da pandemia, a exemplo de outros países atingidos antes pelo coronavírus, como China, Itália e Espanha, poderiam ter salvado vidas.

A pesquisadora cita como referência a previsão inicial feita pelo Imperial College, em Londres, de que o Brasil teria 44 mil mortes, caso estas medidas tivessem uma grande adesão da população e incentivo dos governantes.

“O isolamento exige engajamento social. Faltou uma comunicação efetiva e transparente com a população para conseguir isso em vez de as pessoas entenderem como um castigo. Se isso tivesse ocorrido, das 100 mil mortes, mais da metade teriam sido evitadas”, diz Pasternak.

Erro nº 6: A propaganda da cloroquina fez muita gente se expor ao vírus

Jair Bolsonaro exibe pacote de cloroquina

Reuters
Bolsonaro defende uso da cloroquina, mesmo sem evidências científicas dos seus efeitos contra a covid-19


A imunologista Bárbara Baptista, pós-doutoranda da Fiocruz no Amazonas, avalia que a aposta do governo federal e de outras autoridades na eficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina para prevenir ou tratar a covid-19 contribuiu para o país ter tantas mortes.

Desde o início da pandemia, Bolsonaro defendeu publicamente estes supostos efeitos destas drogas, usadas contra doenças como lúpus e malária.

O Ministério da Saúde recomendou seu uso, associado com o antibiótico azitromicina. O Exército produziu milhões de comprimidos, e muitas cidades distribuíram gratuitamente o medicamento.

Mas, apesar de alguns estudos iniciais indicarem que estas drogas poderiam inibir o vírus, pesquisas mais robustas mostraram depois que não tinham esse efeito.

“Em uma pandemia, o que um governo diz tem peso. Infelizmente, governantes populistas falharam na orientação da população em relação à hidroxicloroquina”, diz Baptista.

A experiência da cientista em Manaus mostra que muitas pessoas acreditaram que poderiam prevenir a covid-19 com essa droga.

“A partir do momento que pensaram estarem protegidas, elas se expuseram mais. Mas, como não estavam, isso levou a um aumento do número de casos e, consequentemente, a um maior número de óbitos.”

Erro nº7: Os hospitais de campanha viraram um ‘problema’

Hospital de campanha em São Paulo

Reuters
Hospitais de campanha ficaram prontos tarde demais e são alvos de suspeitas de corrupção


Na opinião de Margareth Dalcomo, alguns Estados também erraram ao investir muitos recursos nos hospitais de campanha, porque, em muitos casos, havia leitos ociosos na rede pública que não estavam sendo usados por falta de recursos humanos e que poderiam ter sido reativados com a contratação de equipes temporárias.

Em alguns locais, a construção destes hospitais foi concluída tarde demais, quando a demanda já havia caído. Em outros, foram abertos mais leitos do que o necessário, fazendo com que os hospitais de campanha fossem subutilizados.

Há ainda os casos de possível corrupção, como no Rio de Janeiro, onde o Ministério Público investiga se houve desvios de recursos públicos.

“Em muitos casos, os hospitais de campanha acabaram sendo mais um problema do que uma solução”, diz Dalcomo.

A médica acredita que parte destes hospitais teria sido mais útil para receber pacientes com formas mais leves de covid-19 que não tinham condições de se isolar adequadamente em casa. “Eles poderiam ter sido usados como centros de acolhimento para essas pessoas.”

Erro nº8: Não conseguimos proteger os índios

Índia yanomami

Reuters
Ao menos 633 indígenas já morreram e 22.325 adoeceram nesta pandemia no Brasil


A epidemia no Brasil começou pelos grandes centros urbanos, mas já se alertava desde o início que, quando chegasse às tribos indígenas, poderia causar muitas mortes, por estes grupos serem particularmente vulneráveis à covid-19.

Mas os avisos não impediram que os índios fossem seriamente afetados pelo coronavírus: pelo menos 633 já morreram e 22.325 adoeceram, segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).

A pandemia acentuou antigos problemas enfrentados pelas tribos, como falta de equipes de saúde suficientes ou especializadas, e escassez de alimentos e itens de higiene. E, assim como no resto do país, houve falta de testes, equipamentos de proteção e respiradores nas regiões onde vivem.

O assunto chegou ao Supremo Tribunal Federal, que determinou por unanimidade que o governo federal adote medidas para proteger os indígenas.

“Estas populações podem ser contaminadas pelas próprias equipes de saúde; na região amazônica, pela invasão do território por madeireiros e grileiros; e, em aldeias próximas dos centros urbanos, os próprios indígenas precisam ir até as cidades e podem se infectar”, diz Paulo Tupiniquim, coordenador da Apib.

Ele ressalta que, quando o vírus atinge essas comunidades, há um desafio maior de manter um distanciamento social.

“Os indígenas vivem em coletividade. Entre os caiapós do Mato Grosso, por exemplo, há cinco ou seis famílias em uma mesma maloca. Se uma pessoa pega…”, diz Tupiniquim.

Erro nº9: Não conseguimos proteger os mais pobres

Pessoas em favela de Manaus

Reuters
Coronavírus matou mais entre as comunidades pobres, aponta estudo da Fiocruz


A pandemia também atingiu primeiro os mais ricos, por ter chegado ao país por meio de quem havia viajado ao exterior. Mas já se sabia que o vírus se propagaria rapidamente quando atingisse as comunidades mais pobres.

Mesmo assim, faltaram políticas públicas para evitar as mortes justamente entre os mais socialmente vulneráveis, diz a pesquisadora Roberta Gondim, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz e uma das coordenadoras da Sala de Situação Covid nas Favelas.

Um levantamento da Fiocruz divulgado em julho confirmou que, nas regiões onde a pobreza urbana é mais acentuada e faltam serviços básicos, como saúde e saneamento, a doença avança mais rapidamente.

E também mata mais. No Rio de Janeiro, a taxa de letalidade foi de 19,47% nas áreas da cidade com alta concentração de favelas, mais do que o dobro do registrado nas áreas sem favelas (9,23%).

As condições precárias de vida impedem adoção de medidas individuais de proteção recomendadas pela OMS, como o distanciamento social ou a possibilidade de deixar de trabalhar para ficar em casa.

Além disso, doenças pré-existentes que agravam a covid-19 são mais frequentes em pessoas em estado de vulnerabilidade social. E há menor oferta de leitos e acesso a medicamentos e outros recursos capazes de evitar a morte do paciente.

Gondim diz que a situação só não foi pior porque as próprias comunidades correram para se organizar, mesmo sem o apoio do poder público em muitas regiões.

Os mais pobres também tendem a ser os mais prejudicados com a reabertura econômica que já ocorre em parte do país, prevê a pesquisadora. “As populações já vulnerabilizadas é que serão mais atingidas, dada a impossibilidade de acesso às ações protetivas.”

E qual lição a pandemia deixa até agora?

O coronavírus chegou ao país em um momento em que pesquisas científicas eram postas em dúvida por governos e autoridades e quando investimentos no setor eram suspensos ou cortados.

Mas a ciência, feita principalmente em instituições públicas e com recursos públicos, foi justamente um dos protagonistas no combate ao vírus no país, com estudos que ajudaram a compreender melhor um vírus e uma doença até então desconhecidos, pesquisas fundamentais para entender e prever o avanço da epidemia e com o desenvolvimento de equipamentos mais baratos que são essenciais para salvar vidas

“Espero que a gente tenha conseguido mostrar nesta pandemia que a ciência é necessária e que as pessoas levem isso em conta na hora de elegerem seus representantes”, diz Ester Sabino.

Natália Pasternak reforça a necessidade de investimentos “contínuos e consistentes” nesta área. “Ou estaremos em situação igualmente vulnerável em emergências futuras.”

Margareth Dalcomo avalia que a ciência brasileira sairá desta pandemia mais valorizada. “Apesar da perda de cérebros preciosos, por falta de condições adequadas para trabalhar, conseguimos produzir conhecimento, registrar patentes, desenvolver equipamentos a um custo menor, participar de estudos importantes. Acho que esse saber nacional nunca esteve tão próximo da sociedade civil como agora.”

Fonte: IG SAÚDE

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Saúde

Trump x Ciência: os embates incomuns entre o presidente e especialistas

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BBC News Brasil

Donald Trump sentado em sala, olhando para o lado com olhar rígido

AFP
Para analista, Trump deu um passo ‘além da sua linha usual’ de ataques à ciência

Presidentes que buscam a reeleição costumam confrontar seus rivais políticos. Já o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem optado por, em vez disso, confrontar a ciência.

Dois sinais claros dessa atitude desafiadora foram expressos na última semana, a menos de 50 dias da eleição de 3 de novembro.

Na quarta-feira (16/9), Trump contradisse publicamente o diretor dos Centros de Controle de Doenças (CDC) — que havia descartado que uma vacina contra o coronavírus pudesse estar amplamente disponível antes de meados de 2021 e disse que o uso de máscaras pode ser mais eficaz em prevenir infecções do que uma eventual vacina.

“Ele cometeu um erro”, disse o presidente americano sobre cada as duas considerações do doutor Robert Redfield.

O presidente insistiu, em uma coletiva de imprensa, que uma vacina contra a covid-19 poderia ser anunciada em outubro ou “um pouco mais tarde” e estaria disponível ao público “imediatamente”.

Poucos dias antes, Trump se recusou a admitir que os grandes incêndios na costa oeste do país estão ligados às mudanças climáticas, como afirmam vários cientistas.

“Não acho que a ciência saiba” , disse o presidente durante uma visita à Califórnia na segunda-feira (14/9), sugerindo que em breve o clima começaria a esfriar.

Esses comentários afrontosos em relação ao conhecimento científico são considerados incomuns até mesmo para um presidente como Trump, que tem um longo histórico de discordância com especialistas em assuntos como o coronavírus ou as mudanças climáticas.

“É um passo além da sua linha normal, e sua linha normal já é muito extrema”, diz W. Henry Lambright, professor de Ciência Política da Universidade de Syracuse.

“É algo extremamente raro, não me lembro de um presidente que tenha feito isso nos últimos anos”, afirma Lambright, que pesquisa a relação entre governos e ciência há anos.

A questão agora é quais consequências essa posição inédita pode ter.

A eleição e depois

bombeiro trabalha em meio a restos de material incendiado

EPA
Vários cientistas associam os incêndios na costa oeste dos EUA às mudanças climáticas, mas tal relação foi rejeitada por Trump na semana passada

Com quase 200 mil mortes por covid-19, os Estados Unidos são o país do mundo mais atingido pela pandemia, fato que se tornou um assunto decisivo para as eleições de novembro.

Embora Trump demonstre apostar tudo em uma vacina que possa ser disponibilizada o mais rápido possível, a oposição democrata o acusa de politizar a questão e de ter falhado no combate ao coronavírus — inicialmente minimizando-o.

“Confio em vacinas. Confio nos cientistas. Mas não confio em Donald Trump”, disse Joe Biden, rival e candidato democrata à presidência. “E, neste momento, o povo americano tampouco pode (confiar).”

Biden também criticou Trump na segunda-feira (14/9) por suas posições sobre o aquecimento global, chamando-o de “piromaníaco climático”.

O presidente, que ao longo da sua gestão cortou diversas regulamentações ambientais, atribuiu os incêndios na Califórnia ao manejo florestal falho, embora grande parte das florestas naquele Estado sejam controladas pelo governo federal.

Assim, o tema das mudanças climáticas também entrou na reta final da campanha eleitoral.

As pesquisas sugerem que as políticas ambientais e a pandemia preocupam a maioria dos americanos, mas as opiniões variam amplamente, dependendo da posição partidária.

Joe Biden discursando, com gesto e olhar enfáticos

Reuters
Joe Biden caracterizou Trump como um ‘piromaníaco climático’

Por exemplo, menos de um terço dos americanos (31%) confia nas afirmações de Trump sobre o coronavírus, enquanto a maioria (55%) confia no CDC, apontou uma pesquisa da emissora de TV NBC News do mês passado.

No entanto, entre os republicanos, o nível de confiança nos comentários do presidente mais do que dobra: 69%.

Sobre as mudanças climáticas, uma pesquisa do Pew Research Center de outubro indicou que dois terços dos americanos (67%) acreditavam que o governo não estava fazendo o suficiente para reduzir seus efeitos.

Mas enquanto 71% dos democratas consideram as políticas de mudança climática desejáveis, dois terços dos republicanos (65%) acreditam que tais políticas não fazem diferença ou fazem mais mal do que bem ao meio ambiente.

Assim, o impacto eleitoral que seus ataques com a ciência podem ter é incerto — ainda mais considerando que Trump aparece vários pontos atrás de Biden em diferentes pesquisas de intenção de voto.

“Não vejo como isso pode ajudá-lo, (mas) com sua forte base de apoiadores, nada parece prejudicá-lo”, analisa Robert Erikson, professor de Ciência Política na Universidade de Columbia e especialista em opinião pública e eleições, em entrevista à BBC News Mundo.

Em sua opinião, Trump parece estar apelando “para aquela parte de sua base que é cética em relação à ciência, mas é claro que as consequências de longo prazo disso podem ser desastrosas”.

Lambright, por sua vez, também alerta que atual presidente pode ter aberto um precedente para futuros governos.

“Os sucessores de Trump podem não ser tão radicais quanto ele”, diz ele, “mas serão menos relutantes em desafiar os cientistas quando isso estiver de acordo com suas posições políticas”.


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Fonte: IG SAÚDE

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Saúde

Mortes por Covid-19 já são 33,9 mil no estado de São Paulo

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Coronavírus em São Paulo
Agência Brasil/Rovena Rosa

Secretaria estadual atualiza dados da Covid-19 em SP

De acordo com boletim atualizado nesta segunda-feira (21) pela Secretaria Estadual de Saúde, o estado de São Paulo notificou 2.032 novos casos da Covid-19 em um dia, contabilizando agora 937.332 casos desde o início da pandemia. Ainda segundo o boletim, 33.984 mortes foram causadas pela doença no estado.

São Paulo apresenta uma queda gradual da média móvel, apontando uma discreta regressão da pandemia. De acordo com o secretário de saúde, Jean Gorinchteyn, “estamos na nona semana consecutiva na queda de internações do estado”, com mais de 800 mil considerados recuperados. “Mas ainda não podemos esquecer: estamos em quaretena”, completou o secretário.

Existem, no estado, 5.127 pessoas internadas em enfermarias com diagnóstico de suspeita ou confirmação para Covid-19. 3.945 pacientes estão nas unidades de terapia intensiva, em casos considerados graves. A lotação dos leitos de UTI é de 47,7% no estado e 47% na região metropolitana da capital.

Fonte: IG SAÚDE

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Saúde

O que é o treinamento de olfato que combate um dos sintomas da Covid-19

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BBC News Brasil

Menina cheirando flores

Getty Images
A que se deve a perda de olfato e qual é seu impacto emocional?

“É como se uma barreira invisível separasse você da realidade”, diz Saulo.

“É como se minhas memórias tivessem sido apagadas”, acrescenta Ana.

“Tudo tem o mesmo cheiro para mim”, completa Virginia.

Saulo e Ana são brasileiros. Já Virginia é mexicana, mas mora nos Estados Unidos. Em comum, todos os três perderam o olfato e, em alguns casos, o paladar, devido ao novo coronavírus.

A BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC, entrou em contato com eles por meio do AbScent.org, um site que oferece ajuda para aqueles que ficaram, total ou parcialmente, sem a capacidade de perceber odores.

“Em 13 de março, havia cerca de 1,5 mil pessoas no grupo do Facebook”, diz Chrissi Kelly, fundadora da AbScent, à BBC News Mundo.

“Agora tenho três grupos no Facebook com cerca de 11 mil membros no total. Eles começaram a entrar em contato comigo de repente do Irã, Itália, Espanha e, em seguida, um monte de pessoas da América Latina.”

Mulher inala cheio de um frasco

Science Photo Library
Especialistas recomendam exercícios de reabilitação do olfato

“Nos tornamos um termômetro do impacto do coronavírus.”

No AbScent, os usuários encontram informações sobre um tratamento que, embora já fosse oferecida antes de covid-19, está ganhando popularidade devido à pandemia.

A terapia é um “treinamento olfativo”, uma série de exercícios para restaurar a percepção dos cheiros e, no caso de muitas pessoas, devolver normalidade a suas vidas.

Perda de olfato e causas

Várias pesquisas já estabeleceram uma conexão entre a perda do olfato e o novo coronavírus.

“Em nosso estudo, que foi realizado em 15 hospitais em toda a Espanha, de 989 pacientes com covid-19, 53% tiveram alteração no olfato”, diz Adriana Izquierdo Domínguez, alergista do Centro Médico Teknón em Barcelona e integrante da Sociedade Espanhola de Otorrinolaringologia (SEORL).

Mas o novo coronavírus é apenas o mais recente em uma longa lista de possíveis causas.

Saulo Segreto faz o tratamento há mais de quatro meses. “Depois de perder meu olfato, sinto como se uma barreira invisível me separasse da realidade.”

Patricia Portillo Mazal, otorrinolaringologista e especialista em olfato e paladar do Hospital Italiano de Buenos Aires, explica que “uma das causas mais frequentes de perda do olfato são as infecções virais, como resfriados e gripes”.

Outra origem comum são os golpes na cabeça ou no rosto que danificam alguma parte do sistema olfativo, acrescenta.

Às vezes, o motivo da perda do olfato não é identificado, que também pode apresentar graus diferentes.

“Fala-se em anosmia, quando não se percebe cheiro, e em hiposmia, quando a percepção é parcial”, explica Portillo Mazal.

“Mas às vezes o mais limitante ainda é a chamada parosmia, os cheiros distorcidos, quando um café tem um cheiro diferente para você do que você lembrava, muitas vezes de algo desagradável.”

“E dentro da parosmia existe até a fantosmia, que é sentir um cheiro que não existe, mas que você percebe.”

Impacto emocional

A perda do olfato pode afetar profundamente o bem-estar de uma pessoa, a exemplo do que aconteceu com Chrissi Kelly, criadora do AbScent.

Kelly, que nasceu nos Estados Unidos e mora na Inglaterra, perdeu o olfato devido a uma infecção viral em 2012.

“Entre seis e nove meses depois, caí em depressão profunda”, diz ela à BBC Mundo.

“Há algo fundamental que eu gostaria que as pessoas entendessem. Perder o olfato é um duro golpe para o seu bem-estar. Afeta todos os aspectos da sua vida. Você sente como se tivesse perdido o sentido de quem você era”, acrescenta.

Chrissi Kelly

Arquivo pessoal
Chrissi Kelly é fundadora da AbScent. “Há algo fundamental que gostaria que as pessoas entendessem. Perder o olfato é um golpe para o seu bem-estar, afeta todos os aspectos da sua vida.”

Depois de consultar médicos que “examinaram seu nariz sem apresentar soluções”, Kelly começou a procurar informações e a participar de conferências especializadas.

Em uma delas, ela conheceu Thomas Hummel, especialista do Centro de Olfato e Paladar da Universidade de Dresden, na Alemanha.

Hummel foi o primeiro cientista a publicar, em 2009, um estudo avaliando a eficácia do treinamento olfativo.

“Quando contei minha história a Hummel, ele ouviu com compaixão por meia hora. Foi a primeira vez que falei com alguém que me compreendia.”

Kelly começou a frequentar os cursos que o especialista alemão ministrava para especialistas e em 2015 acabou fundando a AbScent.

O site conta com um canal no YouTube com vídeos explicativos e, mais recentemente, passou a disponibilizar guias em espanhol e português para usuários da América Latina.

Saulo, Ana e Virginia

Muitos leitores do AbScent, como Saulo, Ana e Virginia, afirmam ter encontrado no site o apoio que Kelly experimentou ao ser ouvida por Hummel.

“Procurei três otorrinolaringologistas, um neurologista e um pneumologista. Inclusive um deles me passou um antiepiléptico que me deixou bem mal. E através de buscas incansáveis na internet cheguei ao AbScent, que foi fundamental para manter a calma e encontrar suporte”, diz Saulo Segreto, que mora no Rio de Janeiro.

Ana Carbone

Gentileza Ana Carbone
Ana Carbone: “Fico chateada porque não percebo cheiros como os da minha filha, um perfume, ou não sei se pode haver um vazamento de gás”.

Ele sofre de parosmia. “E todos os alimentos com muita gordura ou fritos têm cheiro de queimado”, diz ele.

“Tenho sentido um cheiro ‘esquisito’ ultimamente; é como um cheiro de ‘terra’, misturado a um cheiro de condimento, e eu sinto esse mesmo cheiro em várias coisas. Isso tem me deixado nauseada, é como se eu ouvisse a mesma música 24 horas”, acrescenta Ana Carbone, de São Paulo, que sofre do mesmo problema.

“Não sinto cheiro da minha filha, nem meu próprio cheiro, não sei se estou com cheiro de perfume, ou se minhas mãos estão com cheiro da comida que preparei, por exemplo. Se minha casa está perfumada. Se tem vazamento de gás…”, lamenta.

No caso de Virginia Mata, algumas experiências são até difíceis de descrever.

“Passei o dia 23 de agosto sem conseguir cheirar nada para então sentir um cheiro estranho. Não sei dizer o que é, apenas que é algo estranho.”

“A perda do olfato devido ao coronavírus fez a carne ficar com gosto de gasolina para mim”, acrescenta.

Treinamento olfativo

Não se sabe desde quando a técnica de treinamento olfativo já existe, mas clinicamente ela tem sido usada há cerca de uma década.

A reabilitação consiste basicamente em inalar diferentes odores, concentrando a mente, pelo menos duas vezes ao dia.

“Tem que ser todos os dias, e são inalações curtas, mais ou menos de 20 segundos”, explica Portillo Mazal.

Patricia Portillo Mazal

Arquivo pessoal
Patricia Portillo Mazal, médica do Hospital Italiano de Buenos Aires, faz com que os pacientes preparem seus próprios kits

Geralmente, quatro frascos com cheiros diferentes são usados em cada exercício.

Os quatro aromas usados por Hummel em seus primeiros estudos foram rosa, limão, cravo e eucalipto, mas outras substâncias podem ser usadas.

Portillo Mazal faz com que seus pacientes preparem seus próprios kits.

“Tenho duas variantes. Uma é com óleos, que podem ser de frutas, flores, hortelã-pimenta, ou coisas como lavanda, tomilho ou cravo. Os pacientes põem cerca de 40 gotas em um algodão ou em um pedaço de papel, repetindo o procedimento de vez em quando”.

“A outra opção é um kit com as coisas da casa: mando meus pacientes prepararem potes com café, sabão em pó, orégano ou chocolate picado, por exemplo.”

Frascos de vidro escuro com essência de rosa, limão, cravo e eucalipto

AbScent
Kelly recomenda o uso de potes escuros para que a luz não afete os óleos perfumados. E ele aconselha não cheirar diretamente dos frascos conta-gotas, pois eles limitam a dispersão dos odores

Um dos centros que oferece este tipo de reabilitação na Espanha é a Unidade de Treinamento Olfativo do Hospital Quirónsalud Sagrado Corazón de Sevilha.

“Por duas ou três semanas, submetemos os pacientes a odores e concentrações diferentes por 15 a 20 minutos”, diz o rinologista Juan Manuel Maza, diretor do centro e cirurgião da base do crânio do Hospital Universitário Virgen Macarena de Sevilha.

Técnica mede olfato de paciente

Quiron Salud
Um dos centros de reabilitação na Espanha é a Unidade de Treinamento Olfativo do Hospital Quirónsalud Sagrado Corazón de Sevilha

“Podemos treinar a diferenciação. Com um estímulo repetido, fazemos o paciente começar a identificar e discriminar esse odor.”

“E depois de três semanas, os pacientes podem ter acesso a odores ou fórmulas que coletam em diferentes farmácias e dedicam aproximadamente três minutos por dia ao treinamento.”

Concentração

Um aspecto fundamental do treinamento é fazer os exercícios com grande foco.

“Você tem que estar completamente focado naquele minuto e meio de exercícios, sem pensar no que você tem que fazer naquele dia”, diz Portillo Mazal.

Chrissi Kelly também recomenda evocar memórias.

Virginia Mata

Arquivo pessoal
Virginia Mata: “Existem coisas que você simplesmente dá como certas até não as ter mais, como o cheiro do seu perfume favorito ou uma pizza recém-entregue por um entregador.”

“Ao abrir a garrafa com óleo de limão, mesmo que não sinta cheiro algum, feche os olhos e lembre-se de todos os detalhes de quando cheirou ou comeu um limão.”

“E você deve estar atento a qualquer mensagem olfativa que perceber , mesmo que não seja a esperada.”

Mesmo quando não está concentrada em seus exercícios, Virginia Mata frequentemente tenta “evocar um momento, algum sentimento”.

“Por exemplo, sempre que está chovendo, tento me lembrar do cheiro de terra úmida que imediatamente me lembra aqueles dias caóticos de chuva e trânsito na Cidade do México.”

Resultados

“Em geral, cerca de 60% das pessoas que perdem o olfato o recuperam até certo ponto”, diz Thomas Hummel à BBC News Mundo.

“E o que nossos estudos mostram de forma convincente é que com o treinamento olfativo a taxa de recuperação dobra. Ou seja, as pessoas se recuperam de forma mais rápida e completa”, acrescenta.

Em alguns casos, “recuperar” não significa sentir o mesmo cheiro novamente.

“Às vezes é como se você estivesse em um país estranho, há cheiros que são como uma nova realidade”, diz Kelly.

Médica Adriana Izquierdo Domínguez

Arquivo pessoal
Médica Adriana Izquierdo Domínguez: “Há muitos pacientes com covid-19 que estamos atendendo na consulta que estão na clínica há quatro ou cinco meses e ainda não recuperaram o cheiro ou o recuperaram muito parcialmente”.

Zara Patel, professora de otorrinolaringologia e cirurgia da base do crânio na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, também investigou a eficácia da terapia olfativa.

“A principal conclusão dos meus estudos é que o treinamento olfativo traz um benefício significativo”, diz ela.

“E quando combinado com budesonida, um esteroide tópico, o treinamento ajuda até metade dos pacientes com disfunção olfatória.”

“50% pode não parecer muito, mas pense que isso é um avanço em relação à situação de 10 anos atrás, quando literalmente não tínhamos nada a oferecer a esses pacientes.”

Maza diz, por sua vez, que “entre 45 a 70% dos pacientes” se recuperam.

Em relação à duração do treinamento, Hummel fala de um período mínimo de seis a nove meses.

No caso de Portillo Mazal, o especialista argentino diz a seus pacientes: “Colocamos como meta seis meses antes de dizer que o tratamento não funciona”.

“Digo a eles que, com sorte, em dois meses eles terão percepções momentâneas. Ou de repente sentirão o cheiro de pão, e olharão e haverá uma padaria.”

Motivos

Mas como explicar que inalar algo sem sentir seu odor pode ajudar a recuperar o olfato?

Para entender o motivo, a primeira coisa a lembrar é que o sistema olfativo engloba uma série de órgãos, inclusive o cérebro.

“Na parte interna superior do nariz, estão as primeiras células que captam informações, os chamados neurônios receptores olfativos”, explica Portillo Mazal.

“A viagem começa aí, e dessa célula a informação vai para o cérebro, onde a primeira parada é o bulbo olfatório, um centro pequeno, mas de transmissão e comando.”

“Dali a informação segue para o resto do cérebro. Uma primeira parada é o cérebro mais primitivo, o das emoções. Outra é na área que permite identificar ou discriminar um cheiro do outro”.

“E também vai para uma zona de memória emocional de longo prazo, que é o que faz você sentir o cheiro de um chocolate e se lembrar daquela primeira vez com sua avó.”

Base científica

Uma das chaves que explicam a eficácia da reabilitação é que o sistema olfativo tem uma capacidade extraordinária de regeneração.

“Uma característica do olfato que não vemos em outros sentidos é sua plasticidade”, explica Hummel à BBC Mundo.

“Os neurônios receptores olfatórios estão em constante regeneração”.

Junto com esses neurônios receptores, existem também dois tipos de células.

“As células de suporte ajudam os neurônios a funcionar corretamente”, diz Portillo Mazal.

“E há também as chamadas células basais, que são totipotentes como as famosas células-tronco e que podem ser transformadas em qualquer uma das outras duas, células de suporte ou neurônios.”

Zara Patel explica que “as células basais produzem novos neurônios receptores olfativos ao longo de nossas vidas. Ao estimulá-las repetidamente com a exposição a odores, estamos tentando dizer a elas para ‘acordarem’.”

Juan Manuel Maza

Arquivo pessoal
Juan Manuel Maza: “O olfato é um sentido que também está intimamente ligado ao paladar, e parte dos cheiros pode ser reconhecida com alguns quimiorreceptores na língua”

A estimulação também produz mudanças no cérebro.

“Ao mesmo tempo, acreditava-se que a regeneração ocorria apenas em neurônios na camada superior interna do nariz”, diz Portillo Mazal.

“Mas graças à ressonância funcional, percebeu-se que o cérebro também fica mais ágil, consegue fazer mais com as poucas informações que recebe, então a melhora também se deve à plasticidade ao nível do cérebro”.

Maza lembra que em alguns casos é até possível recorrer a terapias alternativas.

“O olfato é um sentido que também está intimamente ligado ao paladar, e parte dos cheiros pode ser reconhecida com alguns quimiorreceptores na língua que dependem de outros nervos que não necessariamente estão danificados.”

Portillo Mazal observa que o treinamento olfativo visa melhorar o paladar, assim como o olfato, porque o paladar é em grande parte constituído pelo olfato.

“Costumo dizer aos meus pacientes que se eles estão fazendo o exercício de cheirar o café, por exemplo, devem fazê-lo duas vezes por dia, ao saborear a bebida”.

“Quando você faz exercícios com algo que não pode comer (sabonete, por exemplo) você pode inalar pela boca, segurar por alguns segundos e exalar pelo nariz.”

Enigma

Uma das grandes questões em torno do novo coronavírus é por que alguns pacientes recuperam o olfato em menos de duas semanas, enquanto outros perdem a função por meses.

Pessoas caminhando na rua de máscara

Getty Images
Algumas pessoas com covid-19 recuperam o olfato em menos de duas semanas, mas em outras a recuperação é muito mais complexa

Hummel levanta uma possível explicação.

“O novo coronavírus demonstrou afetar as células da glia”, explicou o especialista.

“Trata-se apenas de uma hipótese, mas pode ser que em algumas pessoas apenas essas células morrem, e os restos dessas células causam inflamação que afeta os neurônios receptores. Mas quando a inflamação aguda diminui, os neurônios ainda funcionam”.

“Em outras pessoas, por outro lado, a inflamação é tão forte que também mata os neurônios receptores olfativos, tornando a recuperação muito mais longa e difícil.”

No caso do levantamento realizado em 15 hospitais da Espanha, “na época do estudo, 45% dos pacientes já haviam recuperado o olfato espontaneamente”, explica Izquierdo Domínguez.

“Mas há muitos pacientes que estamos atendendo no consultório que apresentam esse sintoma há quatro ou cinco meses e ainda não recuperaram o olfato ou o recuperaram parcialmente.”

Não desista

Quatro meses após iniciar o treinamento olfativo, Saulo garante que seu olfato “está em 80%”.

Ana ainda percebe cheiros estranhos e sente que está “reaprendendo cada cheiro”.

Casal cheirando frutas no mercado

Science Photo Library
“A memória olfativa é um tesouro e às vezes é pouco valorizada”, diz Virginia Mata

Virginia admite sentir-se frustrada, “porque o tratamento é um processo lento, mas também há dias bons em que percebo uma nota diferente no ar e que me incentiva a continuar”.

Quanto a Chrissi Kelly, a fundadora da AbScent perdeu o olfato novamente neste ano por causa da covid-19. E embora ele tenha voltado em grande parte, ela ainda sofre de parosmia.

O fundamental, para Portillo Mazal, é não desanimar.

“Isso pode levar muito tempo. Não podemos prometer que todos vão melhorar, mas eu não me daria por vencida.”

“É preciso tentar, e isso é difícil, conseguir o equilíbrio entre começar o tratamento sem se deixar levar pela ansiedade, sabendo que talvez daqui a alguns meses você perceberá alguma mudança”.


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Fonte: IG SAÚDE

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