O mercado brasileiro de frango encerrou outubro com recuperação gradual dos preços, sustentada pelo equilíbrio entre produção e consumo e pelo desempenho das exportações. A melhora, observada principalmente nas regiões Sul e Sudeste, ocorre enquanto a avicultura enfrenta restrições comerciais provocadas pela doença de Newcastle em Santa Catarina. Embora as medidas sanitárias tenham avançado no estado, a retomada integral das vendas externas ainda depende de negociações com os países importadores.
Em Santa Catarina, os três focos da doença identificados em granjas comerciais de perus, nos municípios de Nova Itaberaba, Coronel Freitas e Nova Erechim, já passaram pelos procedimentos de eliminação das aves, limpeza e desinfecção. Segundo balanço divulgado nesta segunda-feira (02.11) pela Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc), todas as propriedades afetadas estão em período de vazio sanitário, etapa necessária para reduzir o risco de circulação do vírus antes da retomada da criação.
A vigilância epidemiológica também avançou. As equipes concluíram as inspeções nas mais de 2.700 propriedades mapeadas na área de emergência, incluindo 202 estabelecimentos avícolas comerciais. As autoridades sanitárias continuam acompanhando os resultados laboratoriais e mantendo medidas de controle na região. A conclusão dessas etapas não significa, entretanto, que todos os embargos internacionais tenham sido retirados.
Uma mudança importante ocorreu em 30 de outubro, quando o México reconheceu a regionalização sanitária e voltou a permitir a importação de produtos avícolas dos demais estados brasileiros habilitados. A restrição mexicana passou a atingir apenas Santa Catarina. A China também adotou medidas limitadas ao estado catarinense, preservando as exportações de outras regiões produtoras.
A regionalização evita que uma ocorrência localizada interrompa automaticamente as vendas de todo o país. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o reconhecimento desse mecanismo pelos parceiros comerciais tem sido fundamental para reduzir os prejuízos potenciais decorrentes de emergências sanitárias.
Apesar dos avanços, Santa Catarina continua exposta aos efeitos das restrições impostas por determinados compradores internacionais. A recuperação completa das exportações dependerá da conclusão dos procedimentos sanitários e da aceitação dos resultados pelas autoridades dos países importadores.
No mercado interno, outubro foi marcado por reajustes nas cotações do frango vivo e de alguns cortes comercializados no atacado. Levantamento de mercado aponta que o quilo da ave viva passou de R$ 5,70 para R$ 5,80 em São Paulo. Em Mato Grosso do Sul e Goiás, avançou de R$ 5,30 para R$ 5,45, enquanto Minas Gerais e Distrito Federal registraram elevação de R$ 5,40 para R$ 5,50.
Nas regiões de produção integrada do Sul, os preços permaneceram estáveis. Em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, a referência ficou em R$ 4,75 por quilo, enquanto no Oeste do Paraná se manteve em R$ 4,65. Essas cotações devem ser interpretadas com cautela, porque a produção integrada envolve contratos e critérios de remuneração diferentes dos praticados no mercado independente de aves vivas.
O atacado também apresentou recuperação. Em São Paulo, o peito de frango congelado passou de R$ 9,50 para R$ 9,95 por quilo durante outubro, enquanto a asa subiu de R$ 12,50 para R$ 13,00. A coxa permaneceu em R$ 7,80. Entre os cortes resfriados, o peito avançou de R$ 9,60 para R$ 10,05, e a asa passou de R$ 12,60 para R$ 13,10.
A valorização não foi uniforme. A estabilidade de alguns cortes mostra que a capacidade de repassar preços continua limitada pelo comportamento do consumidor. Ainda assim, a carne de frango mantém vantagem de preço em relação à bovina, fator que favorece sua presença nas compras das famílias.
O comércio exterior continua sendo um dos principais sustentáculos da atividade. Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o país exportou 500,3 mil toneladas de carne de frango em setembro, crescimento de 3,7% em relação ao mesmo mês de 2025. A receita alcançou aproximadamente R$ 5,37 bilhões, considerando a conversão pela cotação de R$ 5,46 por dólar.
Entre janeiro e setembro, os embarques somaram 4,42 milhões de toneladas, alta de 14% na comparação anual. A receita acumulada equivale a aproximadamente R$ 47,35 bilhões. Os números mostram a importância do mercado internacional para o escoamento da produção brasileira e ajudam a dimensionar os riscos de eventuais interrupções comerciais.
Os indicadores parciais de outubro também apontaram crescimento das exportações de carnes de aves e miudezas, embora ainda não representem o resultado consolidado do mês. Em 16 dias úteis, os embarques chegaram a 395,7 mil toneladas, com avanço de 14,8% na média diária em relação a outubro de 2025.
Para os produtores, a continuidade da recuperação dependerá de três fatores: manutenção do consumo doméstico, controle da oferta e preservação do acesso aos mercados externos. A programação dos alojamentos de pintainhos também exige atenção, porque um crescimento excessivo da produção pode pressionar os preços e reduzir as margens da atividade.
O quadro de Santa Catarina acrescenta uma preocupação sanitária a esse planejamento. Mesmo com o avanço do controle dos focos, a normalização das exportações não é automática. A recuperação dos preços internos e o crescimento dos embarques nacionais oferecem algum alívio à avicultura, mas a estabilidade do setor continuará condicionada à demanda e à capacidade de evitar novas restrições comerciais.
Fonte: Pensar Agro